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27/01/2001
Il Comune di Genova ha conferito la cittadinanza onoraria
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Riportiamo qui di seguito il discorso pronunciato da Mario Soares nel corso della cerimonia. |
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Senhor Síndico de Génova, Giuseppe Pericu É, para mim, extremamente honroso o convite que me foi feito para participar e usar da palavra na cerimónia solene de atribuição da "cittadinanza onoraria" de Génova ao ilustre Professor Andrea Riccardi, meu muito admirado amigo. Em particular, neste histórico salão do Palácio de San Giorgio, na belíssima cidade de Génova, de tão grande tradições marítimas e, por isso, ligada há séculos a Portugal e na presença de tão distinta assistência. É uma honra enorme, com efeito, só empalidecida pela circunstância de não poder, para tanto, exprimir-me na língua tão harmoniosa de Dante. Sou há bastantes anos admirador de Andrea Riccardi, cujo percurso universitário, espiritual, humanitário e de grande amigo da paz - percurso excepcionalíssimo - tenho acompanhado em detalhe e com o maior apreço. Mas isso não me impede, seguramente, de ser objectivo. Para além de tudo o mais, Andrea Riccardi é uma figura humana de grande qualidade, convívio fácil, cativante, com um imenso sentido de humor e de alegria e uma aptidão natural para compreender os outros e fazer o bem, que só as consciências muito bem formadas possuem. Foram esses dons espontâneos, de percepção imediata, que me impressionaram tão fortemente em Andrea, desde o nosso primeiro encontro em Assis, "Religiões e Culturas", sob a invocação tutelar do espírito do "Poverello", no começo dos anos noventa. De resto, o meu Pai era franciscano e as obras de São Francisco existiam em minha casa em profusão. Figura de referência, o exemplo de São Francisco era frequentemente lembrado. Por isso, apesar de eu próprio não ser católico e de me considerar agnóstico, nunca deixei de ter uma enorme atracção pela figura humaníssima de São Francisco por ter atingido, julgo, um dos cumes da espiritualidade, da compaixão pelos outros e do desprendimento de si próprio, de todos os tempos. A vida, o pensamento e a obra do Professor Andrea Riccardi estão de tal forma entrelaçadas que não são facilmente separáveis: representam um todo único e coerente. O ilustre Professor da Universidade de Roma, especialista de história contemporânea e de história da Igreja nos séculos dezanove e vinte, o académico, o intelectual e o homem de acção - não são dissociáveis do cidadão fortemente empenhado em melhorar a vida, dos excluídos, dos marginalizados e de gente mais pobre e carecida da cidade de Roma - com a qual convive partilhando as suas dores, angústias e dificuldades - nem, obviamente, do fundador da Comunidade de Santo Egídio. Como escreveu no seu livro "Santo Egídio, Roma e o Mundo": "Nos anos setenta o modelo de Francisco de Assis parece-me muito importante. Pus-me a ler as "Fonti Francescane". Desloquei-me com frequência à Umbria (...) Identifiquei-me com esse pequeno mundo, fui a Assis. Foi então que verdadeiramente encontrei Francisco". E adiante: "São Francisco é um importante companheiro de percurso, sobretudo porque se pretendia leigo, vivendo no meio de todos, na humildade, como "menor" entre os menores. São Francisco é o Evangelho "sine glossa", a amizade com os pobres e, nos últimos anos, o diálogo com o Islão, em Damieta, ao recusar a lógica do inimigo que caracteriza o espírito de cruzada. Francisco de Assis e a sua história demonstram muito bem como o Evangelho pode ser fonte de renovação da vida cristã". Eis neste breve texto, tão singelo e luminoso, inserto do seu citado livro autobiográfico, como o Prof. Riccardi define e justifica as grandes direcções do seu percurso pessoal e do caminho que vem seguindo a Comunidade de Santo Egídio, que fundou: a aproximação com os pobres e uma vivência sincera das dificuldades dos mais humildes e carenciados; o Evangelho como bússola, inspiração e guia da acção moral; o diálogo com os outros, no respeito pelas diferenças, pessoais e culturais, e no esforço de os entender, tais como são, e de os persuadir a preservar nos caminhos da paz; a paz com os mais próximos, a paz social; e a paz, não só como ausência de guerra mas também como assunção do diálogo entre diferentes, da tolerância e da justiça, como forma de superar os conflitos. São estas, se bem compreendo, as grandes linhas do seu pensamento de cristão empenhado na evangelização, no diálogo ecuménico e na mediação de conflitos, e também da natural acção que desenvolve na sua qualidade de presidente da Comunidade de Santo Egídio. A obra do historiador Andrea Riccardi é vasta é reconhecida pela sua qualidade intrínseca e pela excelência da investigação que a sustenta. Mas a sua obra, no quadro da acção e dos serviços prestados ao outros à Igreja e à paz, pela Comunidade de Santo Egídio, é ainda mais original e assinalável. Comecei a ouvir falar na Comunidade de Santo Egídio quando, em sucessivos encontros nas modestas instalações de Trastevere, promoveu o diálogo entre a FRELIMO e RENAMO, os dois partidos que faziam a guerra em Moçambique. Como português, conhecia bem a situação naquele país irmão de Portugal, com um post-independência excepcionalmente complexo e infeliz. Daí poder talvez ter apreciado melhor o trabalho realizado pela Comunidade de Santo Egídio para chegar à paz. Tratava-se de pôr termo a uma guerra civil cruel, prolongada, sem solução à vista, que, quase sem interrupções, se tinha, por assim dizer, substituído à guerra colonial, que durara onze longos anos e causara milhares de mortos. Os representantes da Comunidade de Santo Egídio, com destaque para Andrea Riccardi, o Senhor Bispo D. Vincenzo Paglia e D. Matteo Zuppi - entre outros - com uma paciência verdadeiramente evangélica e um sentido diplomático excepcional, conseguiram convencer os representantes dos dois partidos em guerra, roídos por ressentimentos e ódios velhos, a sentar-se à mesa das negociações, um a ouvir as razões do outro e, finalmente, a chegarem a um acordo razoável, tendo como objectivo a realização de eleições sérias e o estabelecimento da paz. Foi uma vitória do bom senso e da inteligência, construída no respeito das diferentes etnias, que tem dado apreciáveis frutos. Moçambique começou desde então a levantar cabeça. A paz, que reina agora em Moçambique, ainda que precária, tem sido uma benção par aquela terra devastada por infindáveis conflitos e, mais recentemente, atingida por muito sérias calamidades naturais. A verdade é que Moçambique se tem mantido em paz, nos últimos anos, sendo um exemplo para a Região, apesar de dificuldades políticas recentes, que subsistem. A mediação de Santo Egídio em Moçambique constituiu, sem dúvida, um grande sucesso, internacionalmente reconhecido, e um bom exemplo a seguir por outros países. A comunidade tentou, depois, uma corajosa mediação na Argélia, entre as forças armadas, os partidos políticos e os islamistas, mais ou menos impregnados de fundamentalismo. A dificuldade da situação da Argélia é conhecida da ONU e dos meios internacionais. É complexíssima. Não admira, assim, que o sucesso da intervenção da Comunidade de Santo Egídio na Argélia tenha sido menor apesar do êxito da chamada "Plataforma de Roma". O mesmo sucedeu na Guatemala, no Sudão, no Burundi e no Kosovo. Situações de uma dificuldade extrema. Outros países esperam, de resto, os bons e experimentados ofícios da Comunidade, que tem créditos justamente firmados em matéria de contenção, mediação e resolução de conflitos. É uma especialidade nova - e tão necessária! - no âmbito das relações internacionais, em que a Comunidade de Santo Egídio tem sido - e muito bem - pioneira. Para não fugirmos de África, os amigos sinceros de Angola e dos Congos - bem como dos países da Região dos Grandes Lagos - bem gostariam que a Comunidade pudesse intervir, positivamente, em tantos conflitos que se eternizam e renovam, chegando os observadores a pensar tratar-se de uma única grande guerra internacional que tem a ver com o realinhamento geo-político da África Central e Austral. Mas não tem sido, só no domínio da prevenção e mediação de conflitos que a Comunidade de Santo Egídio tem sido pioneira. Também o é na promoção do diálogo ecuménico, tal como o desejou Sua Santidade o Papa João Paulo II, entre representantes qualificados de diferentes religiões e ainda entre crentes e não crentes, abrindo o caminho para um melhor entendimento e para a paz. Tive a honra de participar em alguns desses históricos encontros, em Assis, Pádua-Veneza, Roma e, recentemente, em Lisboa. Posso testemunhar, portanto, acerca da invulgar qualidade dos participantes, da espiritualidade que envolve e preside aos debates, das relações que se tecem entre pessoas vindas de horizontes diferentes e dos caminhos que por aí se abrem para o diálogo e a paz. O último encontro, realizado em Lisboa no verão passado, intitulado "Oceanos de paz, religiões e culturas em diálogo", que o Professor Andrea Riccardi abriu e encerrou com inesquecíveis intervenções, teve, entre tantas outras, a notabilíssima participação do Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, recentemente elevado à dignidade cardinalícia. O Cardeal D. José Policarpo é um homem excepcional, com grandes afinidades com o Prof. Andrea Riccardi. Aproveitou, assim o encontro de Lisboa para no velho Largo de São Domingos - no preciso local em que se realizaram os autos de fé feitos pela Inquisição, onde, até meados do século XVIII, foram queimados tantos judeus e "hereges", pelo que hoje chamaríamos meros delitos de opinião -pedir desculpa, em nome da Igreja Portuguesa, pelos crimes de intolerância e de violência cometidos em nome da fé. Foi uma página importantíssima que se virõu então na história portuguesa, essencial para a pacificação e consolidação democrática de uma sociedade civil pluralista que hoje, em Portugal, conta com a coexistência dialogante de diferentes confissões religiosas. Ficámos a dever esse acontecimento memorável - e não o esquecemos - à Comunidade de Santo Egídio e, em especial, a Andrea Riccardi. Senhoras e Senhores, Teria muito mais a dizer em louvor do Prof. Andrea Riccardi e da sua prestimosa actividade, como pessoa humana e como Presidente da Comunidade de Santo Egídio. No que se refere à sua acção evangélica, junto e em favor dos pobres, por exemplo. Mas entendo não ser a pessoa mais indicada para o fazer. Os aspectos que referi, com a brevidade possível, a que me obriga uma cerimónia deste tipo, são suficientes. Sinceramente - e com toda a humildade -penso que a cidade de Génova, com toda a sua imensa história e tradições, se honra singularmente com a concessão da "cittadinanza onoraria" ao Professor Andrea Riccardi. Mas o Professor Riccardi também se honra, seguramente, com a alta distinção que lhe é concedida pelo Senhor Síndaco de Génova, em nome da cidade que representa, na presença tão significativa de Sua Eminência o Cardeal D. Dionigi, do Senhor Presidente da Autoridade Portuária de Génova e de tantos dos seus Amigos e admiradores. Muito obrigado. Génova, 27 de Janeiro de 2001
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