|
|
|
|
|
20/10/2000 |
|
Associação promove hoje, em Lisboa, jornadas de reflexão |
|
|
É a partir da ideia de que a "opção preferencial pelos pobres" constitui "uma directriz incontornável para a definição do modo de ser e de agir dos cristãos" que a associação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) organiza a partir desta noite, em Lisboa, umas jornadas sobre o tema "Contra a exclusão social - uma cultura de solidariedade". A iniciativa, que decorre no Colégio São João de Brito, abordará temas tão diversos como os sem-abrigo ou a info-exclusão, e incluirá uma "liturgia da mudança", durante a qual o bispo Januário Torgal Ferreira lerá vários textos como que em jeito de perdão pelas omissões da Igreja Católica na sua relação com os pobres. Os autores vão desde Jesus Cristo até São Basílio Magno, Santo Ambrósio, Luther King, Andrea Riccardi e João Paulo II. Sobre a opção pelos pobres, a economista Manuela Silva afirma que ela "é um elemento constitutivo" da mundividência cristã, uma verdade que é necessário recordar, perante o "cortejo das vítimas do empobrecimento e da exclusão social". E os cristãos devem "saber assumir-se como parte do problema para, tomando consciência disso, passarem a ser, cada vez mais, parte da solução". A realidade, recorda a AIS, continua a dizer-se com números alarmantes: nos países industrializados, mais de 100 milhões de pessoas vivem abaixo do limiar da pobreza; mais de cinco milhões não têm casa; 37 milhões estão sem emprego; há mais de 800 milhões de pessoas analfabetas em todo o mundo; nos países em desenvolvimento, a esperança de vida de 20 por cento da população é de apenas 40 anos, como acontecia na Europa na Idade Média. Entre as crianças, 160 milhões são subnutridas, 1,2 mil milhões não têm acesso a água potável e, na última década, dois milhões morreram vítimas de guerras. Ao mesmo tempo, "os três homens mais ricos do mundo têm rendimentos mais elevados que o Produto Interno Bruto dos 48 países menos desenvolvidos, com 600 milhões de habitantes", e o alívio da dívida externa dos 20 países mais endividados do planeta custaria 5,5 biliões de dólares, o equivalente à construção da Eurodisney. As jornadas de reflexão começam esta noite com uma intervenção do padre Matteo Zuppi, da Comunidade de Santo Egídio (que mediou as negociações para a paz de Moçambique), sobre "A solidariedade: uma exigência evangélica". Amanhã, o dia é dedicado a dois painéis: "As diferentes exclusões sociais na sociedade contemporânea" (onde se incluem os temas da marginalização urbana, da nova pobreza, do subdesenvolvimento rural e da "info-exclusão") e "A perspectiva dos excluídos - apresentação de casos" (crianças e jovens de rua, vítimas da prostituição, sem-abrigo, minorias étnicas, os mais pobres e os toxicodependentes). No domingo, será analisada a acção das instituições católicas de solidariedade (feita por Nuno Gonçalves e Acácio Catarino) e haverá um debate sobre "As comunidades cristãs e a construção de uma cultura de solidariedade" (com José Manuel Pureza e os padres Feytor Pinto e Valentim Gonçalves). A Ajuda à Igreja que Sofre foi criada depois da II Guerra Mundial pelo padre Werenfried van Straaten para apoiar refugiados, sobretudo dos países de Leste. Com um grupo português criado há seis anos, tem agora como vocação fundamental apoiar a formação e projectos de igrejas e comunidades cristãs de países em vias de desenvolvimento.
António Marujo
|
|