Comunità di S.Egidio


 

21/02/2003


Soares Apresenta Obra Sobre o Martírio dos Cristãos no Século XX
Presidente de Santo Egídio fala de três milhões de mortos em nome da fé

 

O presidente da Comunidade de Santo Egídio, Andrea Riccardi, está hoje em Lisboa para apresentar a sua obra "O Século do Martírio", uma vasta investigação sobre as violências sofridas por cristãos ao longo do século XX. A obra será apresentada por Mário Soares, no Mosteiro de São Vicente de Fora, às 18h30, numa sessão que conta com a presença do patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, que prefacia a edição portuguesa.

"O Século do Martírio" (ed. Quetzal) apresenta, em 450 páginas, as histórias, os números e os testemunhos de quem viveu ou foi atingido por perseguições apenas por causa da sua adesão a uma determinada fé religiosa - no caso, o cristianismo. Com vista à preparação para o Jubileu do ano 2000, o Vaticano criou a Comissão Novos Mártires, que deveria recolher dados de vítimas de perseguições no mundo inteiro, para actualizar o martirológio cristão e, eventualmente, fazer uma proclamação solene de alguns desses nomes durante o ano jubilar.

Este último objectivo não se concretizou, mas Andrea Riccardi aproveitou o material chegado à comissão, oriundo de todos os continentes, e tratou de o sistematizar. O resultado pode ser contabilizado: três milhões de pessoas poderão ter morrido, durante o século XX, por serem cristãs (católicos, ortodoxos, protestantes, anglicanos ou evangélicos). O caso mais impressionante é o da antiga União Soviética com uma intensa e sistemática perseguição aos cristãos, na sua maioria da Igreja Ortodoxa. Só bispos ortodoxos russos foram 300, mas as perseguições deverão ter vitimado meio milhão de pessoas ao longo das sete décadas de regime comunista.

A Cortina de Ferro, a China e os comunismos asiáticos também estão nesta lista, mas a cegueira não foi só ideológica nem apenas comunista. Os regimes militares da América Latina, as perseguições e massacres em países de maioria islâmica ou hindu como a Indonésia, o Paquistão ou a Índia, ou perseguições em países de maioria católica, mas em que o Estado assumiu o papel de perseguidor, como o México ou a Espanha, são também casos relatados por Riccardi.

As perseguições do nazismo (Riccardi é um dos historiadores que mais tem investigado o potnificado de Pio XII), as guerras e os regimes ditatoriais em África (incluindo a África lusófona), o caso de Timor-Leste durante a ocupação indonésia, as mulheres cristãs ou os que morreram por estarem envolvidos em causas humanitárias - apoio a pobres e doentes, trabalho em organizações não-governamentais, luta contra estruturas terroristas, mafiosas ou de injustiças declaradas são outras situações referidas por Andrea Riccardi.

António Marujo