Comunità di S.Egidio


 

05/01/2004


Da Paz à Sida

 

Dom Matteo Zuppi, 48 anos, é um dos 15 padres da Comunidade de Sant'Egídio, uma congregação de leigos que se tornou conhecida devido aos seus sucessos na mediação de conflitos. Dizem deles que são "diplomatas sem fronteiras", mas também já lhes chamaram "magos". Líbano, Albânia, Moçambique, Argélia, Guatemala, Kosovo, Congo, Burundi são alguns dos marcos da sua geografia. Zuppi foi o artífice da paz em Moçambique e mediador no Burundi. Devido ao acordo de paz ali alcançado, ficou depois a presidir à comissão de cessar-fogo. Tem uma visão crítica dos dirigentes africanos - são cínicos face à miséria dos seus povos, preferem comprar armas a dialogar, enquanto enriquecem de um modo desmedido. É ele também o pároco da basílica de Santa Maria in Trastevere, na capital italiana, onde todos os fins de tarde os membros da comunidade se juntam para uma oração colectiva a que emprestaram ritos de diferentes cultos. É nesta zona de Roma que se situa o antigo convento das carmelitas que serve de quartel-general à comunidade e que lhe deu, aliás, o nome. Pobres, imigrantes clandestinos, sem-abrigo cruzam-se ali com antigos e actuais "pesos-pesados" da ordem internacional, que se tornaram visitas regulares da comunidade desde que esta ganhou fama de conciliadora. Sant'Egidio também não os dispensa, já que tem como princípio a "sinergia" de esforços. Zuppi está na comunidade desde a sua fundação, em 1968. Coordena hoje o programa "DREAM" de luta contra a Sida em Moçambique.

O Iraque Deve Ser Entregue Aos Iraquianos Este Ano
Este é um ano fundamental para os esboços de paz se tornarem realidade

O que podemos esperar do mundo em 2004? Mais guerras ou mais paz?
Só podemos mesmo esperar que os conflitos em curso cheguem ao fim e, para isso, é preciso dar o máximo para se tentar resolver a questão da Terra Santa, de Jerusalém, da Palestina. Temos que impedir que a guerra, que infelizmente marcou o ano passado, possa também continuar em 2004 a semear violência e agressão. Para tal é preciso algo mais do que tem vindo a ser feito. É necessário ajudar a vencer as desigualdades. Porque o problema da violência, do terrorismo, não reside só na lógica de algumas organizações, mas também na injustiça, na pobreza, na desigualdade, que são realidades que ajudam a quem quer semear o ódio e o medo. E por isso também, é absolutamente necessário um novo esforço para vencer as desigualdades e a pobreza no mundo.
[Os membros da Comunidade de Sant'Egidio, para quem "a guerra é a mãe de todas as pobrezas", assumem que foi o seu trabalho com os pobres, nos subúrbios de Roma, que os preparou para serem mediadores de paz ou, por outras palavras, que lhes abriu as portas da "gramática da reconciliação."]

Sendo o Médio Oriente o que é hoje, que oportunidades reais é que existem para a paz?
Nós pensamos que a paz é sempre possível, necessita é de um esforço maior de todos os lados. Claro que há muitas dificuldades e a maior de todas é que existe o grande risco de o terrorismo continuar, defraudando possibilidades, instalando o medo e criando assim mais muros. E por isso o desafio é fazer hoje exactamente o contrário. Não é só uma questão de controlar, mas sim de fazer o contrário da lógica do terrorismo. Construir pontes, como disse o Papa, e avançar no diálogo entre religiões, povos e culturas.
[Palavras do apelo saído do último encontro entre religiões promovido em 2003 pela Comunidade de Sant' Egidio, na Alemanha: "Redescobrimos o orgulho do diálogo (...). O diálogo não é a escolha dos cobardes. Não enfraquece a identidade (...). E leva cada homem e mulher a ver o que de melhor existe no outro e a buscar o que de melhor tem em si (...)".]

O acordo de Genebra, proposto recentemente por elementos da sociedade civil de Israel e da Palestina, é um exemplo dessa atitude?
É esse certamente o espírito do acordo de Genebra. Quanto ao texto do acordo haveria talvez algumas sugestões ou correcções a introduzir, mas o que na verdade importa é ter mostrado que é possível dialogar e essa é uma indicação de que está no bom sentido. Nunca se deve assumir que não é possível, que a oportunidade para o diálogo já acabou. Sabendo nós como a crise no Médio Oriente é profunda e quais são os seus efeitos no mundo, é preciso ter a coragem para lhe fazer face de outros modos, que foi o que aconteceu em Genebra.
[ E que terá também acontecido em Moçambique, segundo o que foi evocado por Zuppi no 10º aniversários dos acordos de paz: "Para nós de Sant'Egidio, a mediação moçambicana foi a prova da força débil dos crentes e dos homens de boa vontade(...) É uma força que não impõe e que tem de fazer face aos poderosos interesses e razões da guerra. Para os crentes esta força vem do imperativo evangélico de não ter inimigos."]
Esses caminhos alternativos para o Médio Oriente também passam pela Comunidade de Sant' Egidio?
Nós vamos prosseguir o trabalho em prol do diálogo entre religiões. É claro que o Médio Oriente tem uma importância particular para todas as três religiões de Abraão, do Livro. E os esforços dos líderes religiosos no sentido do diálogo podem ajudar a encontrar soluções. O que as religiões não podem é ser utilizadas para justificar as guerras ou os conflitos. Desde 1987 que promovemos anualmente um encontro de todas as religiões pela paz [em 2000 decorreu em Lisboa]. Este ano será em Milão. Pensamos que este encontro e outros do género serão uma indicação para uma solução no Médio Oriente.
[ Do apelo de 2003: "O fundamentalismo é a doença infantil de todas as religiões e culturas porque nos torna prisioneiros de uma cultura do inimigo, separa-nos dos outros, privilegia a violência em detrimento da paz".]
"Procurar o que une e pôr de lado o que divide" foi a sua fórmula para Moçambique. Mas será a reconciliação verdadeiramente possível quando, como vocês também dizem, os combatentes, e as vítimas, são "prisioneiros da memória"?
Não é fácil e também não há uma fórmula. Por exemplo, em Moçambique a reconciliação foi de base, o povo reconciliou-se sem comissões ou inquéritos. Na África do Sul a reconciliação foi feita através da Comissão Nacional da Verdade, um momento onde todos puderam tomar consciência do que representou gerações de violência e do sentimento face a ela. No Burundi existe a ideia de se avançar com uma comissão internacional. Não existe uma só maneira de se reconciliar. Há certamente o problema de se conjugar paz e justiça, mas há também o problema de conciliar memória e futuro. Éverdade que não há futuro sem memória, mas o futuro também necessita de não ficar prisioneiro do passado. Dito isto, penso que em todos países que foram marcados pela guerra, pelo sofrimento, pela violência, existe essa possibilidade de futuro.

Também para o Iraque? A curto prazo?
É um grande ponto de interrogação. Pensamos que é fundamental que o Iraque possa ser entregue aos iraquianos o mais rapidamente possível. É essa a preocupação, que seja o mais rapidamente possível. Tem que ser este ano. Porque essa é também a única possibilidade de o Iraque se começar a restabelecer como país.

Acredita que, apesar da História, os iraquianos acabarão por se entender entre eles?
Pode ser possível.
[Algumas regras do que é chamado o "método de Sant'Egidio": promover o reconhecimento mútuo das partes envolvidas no conflito; impedir o isolamento seja ele de um partido e um grupo ou de um dirigente, porque a posição de pária ajuda a actos de loucura; não ter pressa nas negociações; ajudar os combatentes a encontrarem o desejo de um futuro comum.]

Está a tentar ser optimista ou é essa a sua postura de base?
Temos para nós que o pessimismo da razão é o optimismo da fé. Claro que existem sinais que nos levantam grandes interrogações,mas também temos que olharo futuro, este ano já, com esperança no compromisso pela paz, no diálogo entre religiões. Há esperança e essa é uma esperança idealista, mas que vai mais além do idealismo. Em suma, é o que precisamos de ter para não ficarmos prisioneiros da realidade, do terrorismo.
[Uma das convicções da Comunidade de Sant'Egidio: "Se é verdade que após o fim da Guerra Fria existem muitos que podem fazer guerras, também é verdade que hoje cada um de nós pode trabalhar pela paz."]

Não comunga então da ideia de que entrámos já na Terceira Guerra Mundial...
Oxalá que não. Penso que apesar da crise dos organismos de direito internacional e nomeadamente das Nações Unidas, há uma percepção de todos de que uma guerra mundial seria verdadeiramente a última. Não podemos esquecer o sentimento da geração que se viu envolvida na II Guerra Mundial e que foi a geração que construiu a ordem e os mecanismos de paz. Porque a percepção deles era a de que uma outra guerra seria a última. Mas voltando ainda à questão de mais guerra ou mais paz, é bom também lembrar que existem situações que estão a ter um desenvolvimento positivo. Estou a pensar no Sudão. Mas também ainda mais claramente em Angola, que depois de tantos anos está a ter o desafio de construir a paz, finalmente. Existem também sinais importantes na região dos Grandes Lagos (Burundi, Ruanda, Congo). Mas este vai ser um ano fundamental para que estes esboços de paz ou sinais se possam tornar de facto realidades.

Fundamental porquê?
Porque se estes sinais não são estimulados podem transformar-se em recuos. Sabemos o que se passa em situações de conflito recente - quando a paz não se desenvolve é muito fácil recuar. Os Grandes Lagos, por exemplo, que é a região que mais sofrimento tem tido nestes últimos anos, precisa verdadeiramente de ajuda para sair da crise e alcançar uma paz duradoura. A Europa poderia ter aqui um papel determinante, mas continua de fora. Mas este vai ser também um ano decisivo para outra guerra em curso em África...

A da sida?
Sim. Os dados que a Organização Mundial de Saúde divulgou em Dezembro vieram confirmar que se trata de uma questão de vida ou de morte para África. A esperança de vida desceu 10 anos, em cada dia morrem cinco mil homens e mulheres e mil crianças. Nós temos desde 2002 um projecto de luta contra a sida em Moçambique, com centros terapéuticos, que vamos estender a outros países. Mas é uma luta contra o tempo. Mostrámos que existem condições de a terapia chegar às pessoas infectadas, só que é preciso dinheiro. Nos países pobres apenas cinco por cento dos infectados têm acesso a tratamento. Até agora a comunidade internacional fez muitos promessas, mas o dinheiro não vem. É um escândalo. A percentagem do que chega a África está tão longe dos compromissos assumidos pelos governos ocidentais....