Comunità di S.Egidio


 

Expresso

22/05/2004


Sonho combate o pesadelo
Em Moçambique, um programa anti-sida já salvou mais de 400 bebés

 

«O RITMO da minha vida são dois comprimidos que tomo todos os dias de manhã e à noite. É o que me mantém viva», conta Ana Maria Muhai, 43 anos e oito filhos. Hoje é uma das activistas do Programa DREAM da Comunidade de Santo Egídio, em Moçambique.

«Estava muito doente. A minha mãe levou-me vezes sem conta para o hospital. Finalmente, em 2002, trouxeram-me à Santo Egídio, fiz o teste: era seropositiva. Foi um choque. O meu marido abandonou-me. Fiquei sozinha com os três filhos mais novos, e a morte à minha espera», diz Ana Maria. «Cheguei a pesar 29 quilos. Um trapo de mulher. Já ninguém queria comprar na minha banquinha. Apontavam-me a dedo». Agora, Ana Maria dá palestras em português e em changana, «para as mulheres, sobretudo. Explico aquilo que sei, conto a minha vida, digo que a sida mata quem não se trata. Hoje, os vizinhos vão a minha casa e até me pedem sal».

Ana Maria foi na semana passada ao congresso «DREAM, um modelo de luta contra a sida em África», em Roma, organizado pela Comunidade de Santo Egídio. Falou para uma plateia de altos responsáveis internacionais, incluindo 11 ministros da Saúde de países africanos.

Uma lua e um sol desenhados num plástico amarelo indicam quando se devem tomar os medicamentos. São esses dois símbolos que marcam os dias de muitos seropositivos tratados segundo o modelo adoptado pela Comunidade de Santo Egídio em Moçambique, em colaboração com o Ministério da Saúde. O Programa DREAM dá aos seropositivos a triterapia antiretroviral, forma técnicos, faz acompanhamento nutricional e prevenção da transmissão vertical (de mãe para filho) do vírus, que aflige 18% da população moçambicana.

DREAM é um acrónimo de Drug Resource Enhancement Against AIDS in Mozambique (Reforço Medicamentoso Contra a Sida em Moçambique). Tem sido um sonho, dando significado à palavra em inglês. «Em Fevereiro, apresentámos os resultados: 97% de bebés nasceram seronegativos de mães seropositivas», diz Mario Marazziti, porta-voz da Comunidade. «A triterapia, num comprimido só, é o ‘padrão-ouro’ a usar. São já 413 os bebés salvos. As mães estão vivas e com saúde. Demonstrámos que se pode combater a sida com recursos limitados».

Nos dois anos de actividade, quase 8 mil pessoas fizeram o teste, cerca de 4500 estão em assistência, apoiadas com planos nutricionais e tratamento das doenças oportunísticas. Quase 2 mil estão em triterapia. O projecto funciona também noutros países africanos, como Guiné-Bissau, Guiné-Conacri, Tanzânia e Malawi.

Paola Rolletta