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05/10/2007 |
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Se tivessem de começar de novo fariam da mesma maneira? Sobre as conversações penso que faríamos o mesmo, talvez tentássemos ganhar um pouco de tempo, mas pensamos também que foi necessário perder um pouco de tempo para chegar a um acordo maduro, porque isso não é químico. Há talvez alguns aspectos do acordo que deveriam ter sido abordados com mais cuidado, mas digamos que não houve grandes problemas na aplicação. Discuti muitas vezes com Aldo Ajello (ainda há duas semanas estivemos juntos), e ele agora é enviado para o conflito dos Grandes Lagos. Ajello costuma referir-se ao Acordo de Roma como método e também com algumas soluções de conflito. Mas era mesmo necessário todo aquele tempo? À época, quase todos estávamos convencidos que no Natal de 1990 chegava a paz. Quando começámos em Julho (de 1990) tínhamos a sensação que teríamos uma solução mais ou menos rápida. Vendo acordos de outras situações vejo que levaram muito mais tempo e sem resultados. Havia uma grande envolvente. Pedimos às igrejas para nos enviarem cartas para dizerem basta, chega … foram milhares de cartas assinadas e recebidas nas paróquias e que foram trazidas à mesa das conversações. É verdade que Raul Domingos viu uma carta assinada pelo seu próprio pai? É verdade e pode-lhe perguntar como ele ficou … ele que não falava com o pai há imenso tempo para não lhe criar dificuldades. Isto para dizer que pressionámos muito … mas de facto precisámos de mais de dois anos para amadurecer um acordo que desse certo. Tinha de haver tempo para que cada uma das partes se aceitasse. Dou um exemplo, uma das questões que nos levou mais tempo, o preâmbulo, digamos onde estava contida a lógica do acordo, qual era a relação entre Roma e as instituições em Moçambique, entre Roma e a Constituição em Moçambique, que era o problema de fundo. O Governo queria dizer há um Estado que continua, um Governo que continua, não era começar do zero. E a RENAMO dizia não nós estamos a construir um novo Moçambique e não há relação com o vosso Moçambique, com o Partido FRELIMO, dos ladrões e tudo isso … (era interessante ver o projecto de Constituição que a RENAMO apresentou à mesa das negociações para entender qual era a lógica da RENAMO e dos seus conselheiros). Penso que perdemos quatro ou cinco meses. Depois do acordo sobre os corredores humanitários … perdemos muito tempo antes do primeiro protocolo, mas há razões, há uma lógica, uma filosofia de fundo. A partir daí foi muito mais fácil. A chave das negociações A confiança foi uma questão-chave em todo este processo? O problema da confiança era fundamental porque a desconfiança era total. Em outras situações, Congo, Burundi, havia muito mais confiança. Mas em Roma, rigidamente, não havia nenhum encontro informal entre eles. Os únicos encontros informais eram organizados pela mediação. Provavelmente só num ou dois encontros eles disseram “muito bem, agora vamos ficar sozinhos”. Porquê isto? Particularmente do lado da RENAMO não queriam de modo algum que o seu discurso pudesse ser interpretado de forma diferente. Mas essa desconfiança tornou possível no fim produzir garantias e regras claras. Era claro … “somos inimigos” não houve esse estilo “o que precisas, o que queres para terminar, qual é o problema? um bolo? vamos dar um bolo”. A filosofia de fundo da RENAMO era passo a passo. “Queremos esclarecer tudo e queremos um acordo que depois seja muito fácil aplicar”. A desconfiança não era só em relação ao Governo e à FRELIMO. Era também em relação a toda a comunidade internacional que, francamente, estava atrás do Governo O nível de demonização da RENAMO foi levado ao extremo … eles não eram pessoas … É preciso não esquecer o relatório Gersony (Departamento de Estado dos EUA) produzido na década de 80. Era um relatório que não dava à RENAMO qualquer capacidade política. Eles eram só “bandidos armados”. Isto dava-lhes o sentimento que só poderiam contar com eles próprios. Isso dava-lhes o sentimento que o acordo tinha que ser blindado, não podiam confiar em ninguém. Por exemplo, eles queriam que os “capacetes azuis” estivessem presentes a partir do 4 de Outubro. E isso tem lógica, porque eles argumentavam que se houvesse qualquer incidente no terreno eles seriam acusados de serem os culpados. “Toda a comunidade internacional vai certamente apoiar o Governo”. E francamente os “capacetes azuis” só chegaram em Março de 1993 o que demonstra que o acordo foi bem amadurecido. Lembram-me declarações do Presidente Chissano que eram de esperar alguns incidentes nos primeiros meses logo a seguir à assinatura do acordo … Não era só o Chissano, era toda a comunidade internacional que se interrogava sobre a capacidade da RENAMO. Devo dizer francamente que Dhlakama mostrou uma estrutura e uma capacidade de parar a guerrilha, ele era aceite e com capacidade de comando sobre os seus homens. As conquistas do AGP Estes homens eram bombardeados quando vinham às negociações e depois eram acusados de as atrasar … Há aqui um problema de fundo. As negociações decorriam enquanto a guerra prosseguia. O cessar-fogo foi um último acto juntamente com a assinatura do acordo. Claro que a delegação do Governo queria como primeiro ponto nas negociações que se estabelecesse um cessar-fogo. Era complicado, mas claro que a RENAMO gostaria de ter o caminho facilitado para chegar a Roma. O Governo respondia “não vos podemos abrir a porta para vocês saírem”. Há um provérbio que diz que não se pode ter a mulher borracha e a pipa cheia de vinho. Não sei se era verdade, mas é bom não esquecer que havia pessoas que não queriam conversações em Roma. Houve algum momento em que as conversações poderiam ser encaminhadas para outro lado? Não. Dhlakama quando falou connosco antes do início das conversações disse-nos claramente que queria que fossem em Roma. A RENAMO não estava interessada em alimentar especulações com ligações a Portugal. Quando viajavam para chegar a Roma utilizavam o Quénia. Quinze anos depois há motivos para as partes estarem satisfeitas? Acho que sim. Veja-se os números alcançados pela RENAMO e por Dhlakama nas primeiras eleições. Números impressionantes. Acho que a RENAMO foi capaz de operar a transformação de guerrilha para um partido político. A RENAMO hoje administra cidades moçambicanas. Claro que há desafios para todos, como fazer crescer a democracia, fazer crescer instituições apartidárias onde todos possam participar. A saída de Raul Domingos foi uma perda para RENAMO? Penso que sim. O modelo moçambicano, apesar de ser considerado modelo, continua sem réplica … Como tal é verdade … mas podemos dizer que noutros processos tem havido muito da experiência moçambicana que é aplicada … Foi tentado em Angola? O Presidente Mário Soares (de Portugal) tentou envolver a Comunidade de Sant’Egídeo num processo idêntico? Não foi bem assim. A iniciativa não era consistente. Mas antes já havíamos sido contactados pela UNITA, logo depois do falhanço dos Acordos de Bicesse. Fomos contactados pelo Samakuva, pelo Gato. E não avançou? Havia uma lógica diferente. No fim, pouco antes de morrer, o próprio presidente Savimbi nos contactou. Mas do outro lado havia uma percepção completamente diferente. Não resultou. F.L.
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