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7 Fevereiro 2014

Aniversário da Comunidade de Sant’Egídio. Homilia de Mons. Becciu

 
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 Homilia de Mons. Giovanni Angelo Becciu,


Substituto da Secretaria de Estado

 

Caros irmãos e irmãs,

agradeço-vos por me terdes convidado para celebrar esta Liturgia. É para mim uma grande alegria estar convosco nesta Basílica de Latrão, onde nos reúne um sentimento de gratidão para os 46 anos da Comunidade de Sant’Egídio. Várias histórias nos trazem aqui, mas unânime é o sentimento: a gratidão a Deus por ter suscitado na nossa cidade de Roma uma experiência verdadeiramente viva do Evangelho, como resposta às exigências do Concílio Vaticano II de uma Igreja pobre e para os pobres.

Estão aqui entre nós aqueles que começaram aquela experiência de fé e de serviço nas periferias, onde há vários anos os lugares da Comunidade são um refúgio para muitos buscadores de Deus e para as pessoas em necessidade. No espírito de Sant’Egídio - como disse Bento XVI – “se realiza o que acontece em casa: quem serve e ajuda confunde-se com quem é ajudado e servido”, até se tornar uma verdadeira família. Mais uma vez aqui, neste momento, não se distingue aqueles que ajudam e os que são ajudados. Somos um só povo.

Vejo no meio de vós, juntamente com muitos jovens, os rostos de muitos idosos e sei como a Comunidade é o seu apoio na solidão, uma pobreza que é adicionada a tantas outras. Convosco estão pessoas com deficiência, o Movimento dos Amigos, testemunho da alegria de viver. E muitos outros que, estando em necessidade, estão ligados à rede de solidariedade e de comunhão de Sant’Egídio. Pobres próximos e pobres distantes, por vezes povos inteiros que sofrem a maior pobreza que é a ausência da paz. Estão também entre vós alguns Excelentíssimos Embaixadores que saúdo, testemunhas do interesse pela promoção da paz e da solidariedade de Sant'Egídio no mundo.

Saúdo-vos a todos, vindos de vários países da Europa, da África e do mundo, onde Sant'Egídio vive e trabalha. Em particular, gostaria de recordar o prof. Andrea Riccardi, fundador da Comunidade, o prof. Marco Impagliazzo, seu Presidente, e o Bispo Mons. Matteo Zuppi. Saúdo também os Bispos amigos da Comunidade, presentes nestes dias em Roma para um congresso de compartilha. Tantos de nós vieram a esta festa, porque amigos de uma Comunidade que fez da amizade e do diálogo um dos elementos cruciais de sua presença na sociedade.

Olhando para a vossa Comunidade parece-me ver implementado o convite que o Papa Francisco dirigiu a toda a Igreja, na sua recente Exortação Apostólica: «descobrir e transmitir a “mística” de viver juntos, misturar-nos, encontrar-nos, dar o braço, apoiar-nos, participar nesta maré um pouco caótica que pode transformar-se numa verdadeira experiência de fraternidade, numa caravana solidária, numa peregrinação sagrada. (…) Sair de si mesmo para se unir aos outros faz bem» (n. 87). Obrigado por este grande e simples testemunho de “Igreja em saída”, e obrigado pela alegria que caracteriza este vosso andar para as periferias existenciais da nossa humanidade e pelo vosso anúncio do Evangelho.

Onde está o coração desta história? Podemos talvez encontra-lo no Evangelho de Marcos, que acabámos de ouvir, e que nos recorda de forma significativa o coração de sermos cristãos


Jesus chamou os seus discípulos e começou a enviá-los dois a dois. É a implementação de quanto tinha pensado no dia em que nomeou os Doze: chamou-os para estarem com Ele e juntos para enviá-los a anunciar o Reino. Parece uma contradição. Como poderiam eles ficar com Jesus e juntos afastar-se dele para anunciar a conversão e servir os necessitados? Aquele chamamento a si e aquele convergir à sua volta é uma imagem plástica de uma comunhão tão profunda entre o Mestre e os seus discípulos, que permanece mesmo quando eles partem. Onde quer que os Doze vão trazem consigo a presença e o poder do Senhor: será Ele, neles e entre eles, a falar, a curar, a servir, a amar.

Não é o que acontece também convosco? As Comunidades de Sant’Egídio reúnem-se todos os dias para rezar e escutar a Palavra de Deus: em Roma – e recordo a bela Basílica de Santa Maria em Trastevere, onde também eu fui rezar -, mas igualmente em muitos outros lugares do mundo, mais humildes. É Jesus que vos chama, vos fala, vos une a si, vos constitui em comunidade.

Depois Jesus envia-vos, como enviou os discípulos: escuta da Palavra de Deus e missão no mundo são a espinha dorsal da Comunidade, que sustenta numa extroversão misericordiosa em muitas partes da terra. «A intimidade da Igreja com Jesus – recorda-nos o Papa Francisco - é uma intimidade itinerante» (Evangelii gaudium, n 23), até «aprender a descobrir Jesus no rosto dos outros, na sua voz, nas suas reivindicações» (n. 91). A vossa não é e nunca poderá ser uma Comunidade auto-referencial, mas capaz de confundir-se com a história de todos, especialmente dos mais pobres.

Em qualquer lugar onde esteja Sant’Egídio, realiza-se um tecido de comunidade mais ou menos extenso. Não é esta também uma característica do mandato do Evangelho? Jesus não enviou os discípulos sozinhos, mas dois a dois. Gregório Magno diz que, com este gesto, Jesus mostra que «aqueles que não têm amor pelo outro» não pode ser testemunha do Evangelho. É a vossa espiritualidade comunitária, na qual comunhão fraterna e solidariedade com os necessitados se conjugam.

Finalmente, Jesus indica uma maneira particular de sair: não levar nada para a viagem: nem pão, bolsa, dinheiro, duas túnicas. Não é necessário ter medo do futuro, protegendo-se com muitos bens e meios ou com o apoio dos poderosos. O Mestre pede aos discípulos para levarem apenas as sandálias e o bastão, que serve para caminhar. A sua força é a palavra, o amor, a sua presença. Olhando para o caminho percorrido pela Comunidade nestes quarenta e seis anos, através diferentes ambientes e países, vemos que caminhastes assim, confiando em Deus e não dos grandes sistemas organizacionais.

Hoje, depois de um longo caminho, podeis ser tentados a desacelerar o caminho. A fé e o entusiasmo do início, pelo contrário, crescem com os anos. O Evangelho pede-nos ainda a audácia de seguir em frente com confiança, a alegria de quem somos e do que fazemos, sentindo-se identificados com a missão para a qual Jesus nos chamou: descobrir novos pobres, enraizar-se em novos ambientes e países, comunicar o Evangelho a pessoas diferentes, comunicar com mundos distantes. Um diálogo que não recua, mesmo face daqueles que pretendem interferir na vida interna da Igreja, exigindo uma mudança da sua doutrina e dos seus valores éticos. O Papa Francisco escreve na Evangelii Gaudium: «Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos. Se alguma coisa nos deve santamente inquietar e preocupar a nossa consciência é que haja tantos irmãos nossos que vivem sem a força, a luz e a consolação da amizade com Jesus Cristo, sem uma comunidade de fé que os acolha, sem um horizonte de sentido e de vida» (n. 49).

Na estrada percorrida até hoje, não encontrastes apenas dificuldades, gente que não vos recebeu e não vos escuta, como diz Jesus prevenindo os Doze, mas descobristes algo de decisivo: «Partiram, 
pregaram que a gente se arrependesse, expulsaram muitos demónios, ungindo com óleo muitos doentes e os curavam», como escutamos no Evangelho. Descobristes um “poder” diferente dos poderes do mundo. É o poder de consolar, curar, expulsar as sombras demoníacas do mal, para dar luz, comunicar e construir a paz. Deus deu esse poder aos discípulos. Ao longo de mais de quarenta anos de caminho cristão vos foi demonstrado com evidência.

Na verdade Sant’Egídio não se envergonha do Evangelho, mas este é o coração de seu testemunho. Não pára diante da pobreza e da dor. Penso ao trabalho de solidariedade realizado em Roma, mas também nos países mais pobres do mundo, como o acompanhamento de doentes com SIDA em África. Penso ainda nas iniciativas para acabar com a guerra e principiar processos de paz, para pôr num diálogo amigo e de estima recíproca diferentes religiões e culturas. Não podemos desistir: é possível superar a doença, a guerra, os ódios sociais, e para lutar contra a pobreza, pela paz, pela fraternidade. Claro que não se consegue tudo isto num dia. O milagre não é a magia de uma hora ou de alguns minutos. Mas os milagres são possíveis. É por isso que temos de continuar a caminhar na fé e no amor.

O Papa Francisco iniciou uma nova época na vida da Igreja. Ele nos pede para sair e ir ao encontro das pessoas, para que ninguém fique sozinho, sem a misericórdia e o amor do Senhor. Acredito que a Comunidade de Sant’Egídio, seguindo os passos do Papa Francisco, encontre com naturalidade o caminho do futuro: possa crescer no amor, na missão, em estreita proximidade com os pobres e tecendo laços de amizade e de paz em toda a parte. O Senhor vos abençoe e vos guarde no seu amor.

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