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6 Agosto 2014

Iraque e Síria: Perseguições, o alarme já não é suficiente. Agora é preciso pensar em soluções práticas

Andrea Riccardi no jornal "Corriere della Sera"

 
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CORRIERE DELLA SERA 

A SITUAÇÃO DRAMÁTICA NO IRAQUE E NA SÍRIA                                          

Perseguições, o alarme já não é suficiente. Agora é preciso pensar em soluções práticas 

 A situação dos cristãos no Iraque e na Síria é cada vez mais dramática. É um mundo que, infelizmente, está a arriscar de acabar. Todavia, por quase vinte séculos, resistiu a muitas guerras e invasões, certamente não benevolentes para com os cristãos. Mas agora nem consegue encontrar aqueles espaços (embora reduzidos) que muitos governantes intolerantes lhes tinham deixado ao longo dos séculos anteriores. Está a lidar-se com um totalitarismo islâmico, que não aceita as diversidades, nem sequer no interior da sua própria comunidade religiosa. Os cristãos estão a ser expulsos e destroe-se um património cultural único. Na Europa seguem-se um ao outro as intervenções de líderes de opinião e clérigos, que, com razão, denunciam a situação. Chicoteam, muitas vezes, o silêncio da nossa sociedade. Mas há meses que se está a falar sobre este drama (como na Itália estão a fazer o “Avvenire” e o nosso jornal). Claro que nunca é suficiente. 

Embora às vezes confunda-se a situação dos cristãos sírio-iraquianos com a dos judeus: duas realidades difíceis, mas tão diferentes. Todavia – para ser honestos – o problema hoje não é o silêncio, mas a impotência. E a impotência esta a venda, por ser muita, e vem de longe. Dirigir-se para um "mítico" Ocidente, para que defenda os cristãos, já não se enquadra na categoria de factos reais. Ainda cem anos atrás, a França iria intervir com força militar (como fez no início do século passado, quando o sultão não reconheceu o Patriarca Caldeu). A referência para o Ocidente permanece no horizonte dos cristãos orientais: "mas o que está a fazer a França?" perguntou-me com amargura um deles. Infelizmente, França, EUA, Alemanha, Itália, estão apertados numa camisa de impotência. A Rússia, muito atenta ao destino do Oriente cristão, apóia o regime de Assad, considerado pela maioria dos cristãos como o último bastião. 

Na verdade, no que diz respeito aos cristãos do Iraque, o último capítulo de uma longa história triste começou com a guerra americana contra Saddam Hussein. Não existe saudade nenhuma do governo do ditador, mas os cristãos sentiam-se garantidos pela sua tirania "leiga". 

O Patriarca Caldeu Bidawid dava a volta do Ocidente, ao repetir que Saddam era a última garantia. Todavia, houve a guerra. Alguns falaram de choque para afirmar a democracia. Mesmo em nossa casa. Também se afirmou que se estavam a defender os valores cristãos. 

João Paulo ll, certamente não um amigo de ditadores, denunciou aquela guerra com grande clareza. E mesmo no mundo católico nem sempre foi seguido, mas se actuaram várias distinções. Pela guerra e pelo caos que seguiu, começou o fim dos cristãos iraquianos, que passaram de 1,4 milhões para os actuais 300 mil. Foi um momento de insegurança total. 

Quem puder emigra. Como criticá-lo, quando as famílias estão sujeitas a coabitações impossíveis em bairros atingidos pelo banditismo e terrorismo? Ou quando as igrejas são vátimas de ataques? 

No caos do Iraque, foi apresentada a idéia de uma província  com forte presença cristã nas planícies de Nínive (aqui agora encontram refúgio os cristãos que escaparam de Mosul islamizada). Os norte-americanos apoiaram o projeto. A presença curda e a proximidade do Curdistão ofereciam garantias de segurança. Por parte da Igreja se disse que se iria criar um "gueto". Não era o ideal, mas um paliativo para uma minoria em risco em todos os lugares. Na verdade, até mesmo no mundo da Igreja, não houve um projeto. Volta a impotência que domina sobre todos. Então, injuriar contra a Europa exigiria um pouco mais de reflexão. Para os cristãos, o erro foi a guerra contra Saddam. Mas agora o Ocidente que pode fazer? A França propôs asilo aos cristãos expulsos. Já é muito para uma Europa com as portas fechadas. Recebeu respostas negativas pelos prelados franceses e iraquianos, que pedem aos cristãos de permanecer. Há anos que os bispos orientais o pedem, mas, infelizmente, as famílias, se puderem, buscam segurança e futuro no exterior. 

A impotência assusta. Assim multiplicam-se os gritos. Talvez a única chance hoje seja trabalhar para uma coexistência entre cristãos e curdos nas planícies de Nínive e no Curdistão. Entre os curdos (que foram perseguidores dos cristãos por um longo tempo) houve uma evolução cultural: abriram-se a uma interculturalidade que abre espaço para os cristãos. Isso pode ver também nas províncias curdas da Turquia como Mardin ou Diyarbakir. Nesta perspectiva, talvez as Igrejas e os países ocidentais possam agir. Para a Síria, o apelo para uma área de um cessar-fogo em Aleppo mostra – na minha opinião – a estrada para subtrair esta cidade, patrimônio da humanidade e lar de muitos cristãos, ao triste destino de cair nas mãos dos rebeldes islâmicos e seguir o caminho de Mosul. É preciso mostrar alguma saida em breve, pois vidas humanas estão em jogo. Cristãos e leigos no Ocidente estão desafiados a sair da impotência. Há a necessidade de pensar de uma forma realista e eficaz; nós não estamos desculpados pelos gritos que lançamos de forma contestadora. Esperamos que a boa idéia da Conferência Episcopal Italiana para um 15 de agosto dedicado à memória dos cristãos na dificuldade faça amadurecer energias e decisões.  

Com efeito, é preciso uma reflexão e uma ação "a mais".

Andrea Riccardi

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