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Sinto uma grande letícia em confiar-Lhe, Senhor Cardeal, a
tarefa de apresentar a expressão da minha estima e a minha saudação aos
ilustres Representantes das Igrejas e Comunidades Cristãs e das grandes
Religiões mundiais, reunidos neste ano em Lisboa para o XIII Encontro
Internacional sobre o tema: Oceanos de paz: religiões e culturas em diálogo.
Vem-me à mente aquele 1986, quando pela primeira vez homens e mulheres de
religiões diferentes se reuniram juntos para invocarem a paz de Deus
exactamente na colina de Assis, marcada pelo testemunho de São Francisco. Esse
acontecimento não podia ficar isolado. Com efeito, tinha uma força espiritual
extraordinária: era como uma nascente da qual começavam a brotar novas
energias de paz. Por isso auspiciei que o "espírito de Assis" não se
extinguisse, mas pudesse expandir-se pelo mundo, suscitando em cada lugar novas
testemunhas de paz e de diálogo. De facto, este mundo, marcado por inúmeros
conflitos, por incompreensões e por preconceitos, tem uma enorme necessidade de
paz e de diálogo.
Gostaria portanto agradecer de forma especial a Comunidade de Sant'Egidio pelo
entusiasmo e a coragem espiritual com que soube acolher a mensagem de Assis e
levá-la em tantos lugares do mundo, através dos encontros de homens de
religiões diferentes. Lembro-me do Encontro de Bucareste em 1998, que grande
eco teve na Roménia, onde, durante a minha Visita apostólica, ouvi gritar com
insistência pelo povo: "Unitate! Unitate!". Sim, caras irmãs e
irmãos cristãos, aquela unidade continua a ser para nós empenho prioritário.
Nós olhamos com esperança para o século que se abriu, porque - como escrevia
na Ut unum sint! - "a longa história dos cristãos marcada pelas
multíplices fragmentações, parece compor-se novamente, tendendo para aquela
fonte da sua unidade que é Jesus Cristo" (n.22).
Estou convencido de que o "espírito de Assis" constitui um dom
providencial para o nosso tempo. Na diversidade das expressões religiosas,
lealmente reconhecidas, estar uns ao lado dos outros manifesta, de forma também
visível, a aspiração para a unidade da família humana. Todos devemos
caminhar para esta única meta. Lembro-me de quando, jovem Bispo no Concílio
Vaticano II, apus também a minha assinatura na Declaração "Nostra Aetate"
a partir da qual começou uma rica relação entre a Igreja católica, o
Hebraismo, o Islão e as outras religiões. Essa Declaração conciliar afirma
que a Igreja, "no seu dever de promover a unidade e a caridade entre os
homens, aliás entre os povos, examina aqui, antes de mais, o que os homens têm
em comum e o que os impele a viver juntos o seu destino comum" (n.1).
O diálogo entre as religiões a isto deve tender e por isto deve operar. Hoje,
por graça de Deus, este diálogo já não é apenas um auspício; tornou-se uma
realidade, embora o caminho que está à nossa frente ainda seja longo. Como
poderíamos não agradecer ao Senhor pelo dom desta abertura recíproca que
anuncia uma compreensão mais profunda entre Igreja católica e Hebraismo, mesmo
enquanto ainda está viva em mim a memória da peregrinação inesquecível na
Terra Santa? Mas os frutos significativos também vieram do caminho do encontro
com o Islão, com as religiões orientais e com as grande culturas do mundo
contemporâneo. No início do novo milénio não devemos afrouxar os nossos
passos, mas, pelo contrário, é preciso imprimir uma maior aceleração a este
caminho prometedor.
Vós, bem sabeis, que o diálogo não ignora as diferenças reais, mas, nem
sequer cancela a condição comum de peregrinos para novas terras e novos céus.
E, além disso, o diálogo convida todos a fortalecer aquela amizade que não
separa e não confunde. Devemos todos ser mais audazes neste caminho, para que
os homens e as mulheres deste nosso mundo, de qualquer povo e crença, se possam
descobrir filhos do único Deus e irmãos e irmãs entre eles.
Hoje estais em Lisboa, à beira do Oceano Atlântico, e o vosso olhar é
impelido para os povos e as culturas do mundo. Lisboa é a primeira etapa do
vosso caminhar comum neste novo século. Portanto, obrigado a Vós, Senhor
Patriarca José da Cruz Policarpo, por ter acolhido, com toda a Vossa Igreja,
esta peregrinação. Através de Vós saúdo também os Confrades do Episcopado,
todo o querido povo português, que tive a ocasião de encontrar na minha
recente peregrinação em Fátima.
Muitos são os problemas que se acumulam perante o horizonte do mundo. Mas a
humanidade está à procura de novos equilíbrios de paz: "Portanto é
necessário e urgente - como escrevia no Meeting de "Homens e Religiões"
em Milão em 1993 - encontrar de novo o gosto e a vontade de caminhar juntos
para construirmos um mundo mais solidário, ultrapassando interesses
particulares de grupo, de etnia, de nação. Neste sentido, que importante
tarefa as religiões podem desenrolar! Pobres de meios humanos, elas são ricas
daquela aspiração universal que tem raiz na relação sincera com Deus" (Ensinos,
vol. XVI/2, 1993, 778).
Ao confiar a Vós, Senhor Cardeal Edward I. Cassidy, esta minha Mensagem para os
participantes no encontro de Lisboa, aos quais renovo a minha cordial saudação,
invoco sobre todos os presentes as benções de Deus Todo-Poderoso. Que os
homens e as mulheres de cada povo da terra possam, com a ajuda de Deus,
prosseguir com renovada decisão no caminho da paz e da mútua compreensão!
Vaticano, aos 21 de Setembro de 2000.
João Paulo II
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