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Maria, conforto dos migrantes: com a nova invocação querida pelo Papa Francisco, a crónica torna-se oração. Um editorial de Andrea Riccardi

4 Julho 2020

Andrea RiccardiMIGRANTS

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Mater misericordiae, Mater spei e Solacium migrantium são os novos títulos. O último coroa uma intuição de Pio XII

O Papa Francisco acrescentou três novas invocações Lauretanas às tradicionais ladainhas: Mater misericordiae, Mãe da Misericórdia, Mater spei, Mãe da Esperança, Solacium migrantium, Ajuda aos migrantes. Não é novidade que os Papas introduzam outras invocações. João Paulo II queria que Maria fosse invocada como "Mãe da família".
Enquanto o mundo está a sofrer as consequências da crise da Covid-19, o peso do pessimismo generalizado é sentido, não só na economia e no trabalho, mas também no futuro, Francisco introduz o tema da esperança: Maria é a "Mãe da esperança" e a Igreja aponta para o futuro com esperança, sabendo que, apesar de todas as dificuldades, não estamos sós, mas acompanhados pela presença do Senhor. O desespero irrompe quando nos sentimos abandonados. A condição daqueles que rezam é a descoberta de que não estão sozinhos, abandonados a si próprios.

Papa Francisco na Missa dos migrantes, 8 de Julho de 2019 - Fotografia do Vaticano

 

A invocação à Mãe da Misericórdia é o legado do Jubileu da Misericórdia, no qual, como Povo de Deus, compreendemos que a misericórdia é o modo de vida de todo o cristão: "Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia" (Mt 5,7). O desafio é viver na misericórdia, mesmo num mundo violento, mas também construir um mundo de misericórdia e de relações misericordiosas.
A invocação a "Maria, ajuda dos migrantes" pode vir como uma surpresa. Alguns poderiam dizer que é a intrusão de temas sociais ou mesmo políticos na oração mariana. Mas a nossa oração, pessoal e comunitária, está sempre cheia de questões sobre situações concretas, portanto também sociais e mesmo políticas. Nas ladainhas há orações a "Maria, saúde dos enfermos" e "consoladora dos aflitos". E sempre, especialmente em tempos de guerra e onde as pessoas lutam, Maria tem sido invocada como "Rainha da Paz", na convicção de que a oração guia os corações e as mentes daqueles que lutam ou dos realizadores da guerra rumo à paz. Em outras ladainhas Maria é invocada como "estrela dos navegantes". Nas tempestades, talvez muitos navegantes a tenham invocado desta forma.
É bom pensar que Maria, exilada no Egipto com a sua família, possa ser "ajuda aos migrantes".A Livraria Editora Vaticana republicou (com um ensaio do Padre Baggio e meu) a constituição apostólica de Pio XII de 1952, Exsul Família. Aqui o Papa declara que a família de Nazaré é "o apoio de todos os emigrantes e peregrinos de todas as idades e de todos os países, de todos os refugiados de qualquer condição que, pressionados pela perseguição ou pela necessidade, se vêem forçados a abandonar a sua pátria". Nada mais espontâneo do que invocar a Virgem Maria como a ajuda dos migrantes. Estamos gratos ao Papa que alarga o horizonte da oração .
Afinal, estamos a viver num mundo onde o número das pessoas em fuga está a crescer. São 79 milhões e oitocentos mil, dos quais quase 26 milhões são refugiados (e mais de metade têm menos de 18 anos de idade). Olhemos para este mundo com participação, façamos algo para evitar novas migrações (estou a pensar na regularização dos trabalhadores em Itália) e rezemos por eles, expostos a tantos riscos, talvez invocando "Maria, ajuda dos migrantes".

Editorial de Andrea Riccardi na Famiglia Cristiana de 5/7/2020