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Da porta aberta da Igreja possa-se ver, mesmo no martírio, à luz de uma esperança mais forte do que a morte

29 Julho 2016

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A homilia do Padre Marco Gnavi na oração em Santa Maria em Trastevere pelo padre Jacques Hamel, pelas vítimas do terrorismo e pela paz

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 A homilia do Padre Marco Gnavi, pároco de Santa Maria em Trastevere, na oração de sexta-feira 29 de Julho, em comunhão com a Igreja da França, depois do ataque em que foi morto o padre Jacques Hamel.

Gênesis 9, 1-7

Esta noite, aqui em Santa Maria em Trastevere e em todos os sítios onde a Comunidade de Sant'Egidio está presente na Europa, quisemos juntar-nos com a Igreja da França e o seu povo, neste dia de oração e jejum, para recolher a memória de p.Jacques Hamel, bom pastor que com 86 anos de idade viu a sua vida brutalmente cortada enquanto celebrava a missa na paróquia de St. Etienne du Rouvreay, na pequena cidade de  Rouen.

A nossa invocação é como um grito que se eleva a Deus, cheio de tristeza e espanto: um bom homem, sábio, idoso foi morto por mãos jovens, impregnadas de uma ideologia de morte, capturadas pela fascinação da violência. Um sacerdote filho de uma Igreja espiritualmente grande, que tem dado tanto à Igreja universal e que hoje não cede à intimidação do medo, dos muros, do confronto, com a força de seu compromisso com o Evangelho, da sua sabedoria, de um amor pela vida profundo, manso e tenaz. Manso e tenaz, porque a vida de P.Jaques que construiu e investiu a sua existência no serviço e ao se abrir aos outros, como testemunhou com sinceridade o mesmo Imã da mesquita construída ao lado da paróquia. Com grande coragem, o Cardeal Vingt -Trois pregou em Notre Dame em Paris, questionando o próprio Deus, no momento da dor mais aguda e da perturbação, quando parecem ser desafiados o seu poder e o seu amor. E  reivindicou, na esperança de p.Jacques e no seu ministério, dos cristãos feridos pela perseguição, dos jovens que se reuniram em volta do Papa Francisco em Cracóvia, o recurso para não sucumbir ao ódio, à tentação do niilismo, à força da morte. Em face dos medos coletivos, da erosão dos planos coletivos de bem, evocou a resposta da fé, sem evitar as questões dramáticas sobre o destino da humanidade. O dom Pontier, por sua vez, após o assassinato brutal reagiu afirmando: "Só a fraternidade, querida ao nosso país, é o caminho que conduz a uma paz duradoura. Construímo-la juntos".

Há comunhão de visão e força interior entre esses pastores e o idoso sacerdote de Rouen, que não aceitou de viver sem servir, de pregar sem testemunhar ele próprio de forma concreta a abertura universal da Igreja no encontro humano, na oração, na construção de pontes para outros. Ele havia escrito, pouco antes do verão, isto é: "um momento para ser respeitosos com os outros, sejam quem forem". E perguntara: "Orem por aqueles que são mais necessitados, para a paz, para uma vida melhor juntos ...."

Andrea Riccardi comparou a morte violenta de P.Jacques à de frére Roger, esfaqueado até a morte durante a oração das Vésperas em Taizé, dizendo: "Nunca teríamos pensado de vê-lo novamente, aqui, na Europa. Mas aconteceu. É um gesto que revela a desumanidade dos terroristas e sua completa falta de sentido religioso, que em vez habita em muitos muçulmanos com o respeito dos "homens de Deus" e da oração. Jovens, doidos, enjaulado na lógica totalitária de ódio e da propaganda do Daesh, fizeram este ato sangrento. Exibição odiosa de violência brutal. Expressão da vontade primordial de aterrorizar a sociedade francesa para fazê-la cair em reações precipitadas".

A França sofreu muito, e as feridas são profundas. Os ataques de 7 de Janeiro e 13 de Novembro de 2015. Por fim, a perturbação com o ataque de 14 de Julho, em Nice, que tem ensanguentado o dia do feriado nacional de todos os franceses, dia de alegre para muitas famílias, crianças, jovens, idosos. Ao Embaixador da República da França junto à Santa Sé, ao Agente Diplomático junto ao Quirinale, ao Embaixador junto à FAO - que agradecemos pela presença deles e que saúdamos com amizade - renovamos não só a nossa solidariedade, a nossa proximidade, mas também o nosso firme compromisso para erradicar os mecanismos de ódio e subtrair espaço a cada projeto de mal.

No livro do Gênesis, a bênção de Deus sobre Noé - e através dele sobre toda a humanidade marcada pela inundação e salva do destino de soberba e incompreensão - aparece como vida, triunfo da vida, acompanhada por um aviso: "Pedirei contas do vosso sangue a todos os animais, por causa das vossas vidas; e ao homem, igualmente, pedirei contas da vida do homem, seu irmão".

o sangue do homem, a sua vida é sagrada para o Senhor e a Igreja sente de dar contas da vida de cada um. O sangue de P.Jacques, juntamente com o de tantas pessoas inocentes pede, ou melhor grita, não vingança, mas paz, revolta interior contra o ódio, e mostra ao mesmo tempo a fragilidade e a grandeza dos homens e das mulheres marcados pelo Evangelho. A humanidade deles é cheia de paixão e de amor, e nem mesmo a morte pode quebrar essa confiança. Nem mesmo a morte na cruz do Senhor Jesus, quebrou a sua fé na vida, no Pai, a sua confiança na conversão ao amor dos homens. Para isso, nós oramos, unidos e concordes. Para a proteção dos inocentes, para a conversão dos malvados, poara que uma geração não seja perdida no abismo de ódio. Para que homens semelhantes a P. Jacques surgam a cada geração e o nosso mundo não seja deixado a si mesmo. Para que da porta aberta da Igreja, se possa vislumbrar, mesmo no martírio, a luz da esperança, e ela seja mais forte do que a morte. Amém