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"A Comunidade tem tratado o mundo como irmãos todos praticando a arte do encontro que é o segredo da vida". Homilia do Cardeal Matteo Zuppi para o 53º aniversário de Sant'Egidio

6 Fevereiro 2021 - ROMA, ITÁLIA

Sant'EgidioMatteo Zuppi
ANNIVERSARY OF THE COMMUNITY

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Homilia do Cardeal Matteo Zuppi

Sinto e sentimos tanta alegria e emoção hoje, unidos num laço que é tanto espiritual como digital. E é o primeiro que torna o segundo eficaz!

Esta noite agradecemos ao Senhor pelo dom da Comunidade. Estamos reunidos juntos da dispersão. Dar graças torna-nos jovens, faz-nos descobrir e redescobrir algo que nunca deixamos de compreender e que, de facto, como em Caná, saboreamos como é sempre o melhor vinho. Esta Mãe - estamos na Basílica dedicada a ela, fonte de consolação e força - é um dom de Deus, adoptados todos sem mérito e confiada a cada um de nós. A Comunidade tem muitos anos, mais do que muitos de nós, e no entanto é como o rosto de Maria, sempre jovem. É de facto uma experiência que é sempre nova, embora trespassada por muitas espadas, reflecte sempre o amor de Jesus. É um motivo de orgulho ser filhos desta Mãe e, portanto, irmãos e irmãs entre nós. Não, verdadeiramente a minha vida e a nossa não teria sido a mesma! Abençoado é o dia do nosso encontro e abençoados são todos os dias acompanhados como estão pelo amor de Deus e sustentados pela comunidade dos irmãos e das irmãs. Agradecemos porque a luz da Comunidade não só não diminuiu, mas representa uma luz que ilumina tantas das trevas do mundo, cujo nome desperta a esperança no desespero, conforto para aqueles que estão imersos na escuridão do mal, alegria pelo seu amor gratuito. E a gratuidade sugere gratuidade. Na pandemia, vimos isto claramente. A Comunidade sempre enfrentou pandemias, não se considerou saudável e procurou curar um mundo doente. Não se fechou num mundo psicológico ou nas agitações do bem-estar, não procurou condenar e não se contentou em admoestar com princípios mas sem se envolver no caminho. A Comunidade tem sido uma mãe atenciosa, sábia, generosa, ousada e prudente, tratando o mundo como irmãos todos, praticando a arte do encontro que é o segredo da vida. Não se deixou intimidar pelo mal e não deixou crescer as raízes da amargura das inevitáveis desilusões. Ela permaneceu aberta ao inesperado, indignada com tanta vida desperdiçada, mas com o cuidado de construir com prudência sobre a rocha da Palavra. Andrea não se contentou em encontrar algumas respostas para si próprio e para alguns dos seus amigos, mas não se entregou porque fez sua a ansiedade do mundo, sem fronteiras, levou-nos com inteligência e paixão para a grande complexidade da história, compreendeu as suas profundas correntes para que pudesse ser alcançada pelo Evangelho. O Evangelho pede-nos de se fazer tudo a todos, faz-nos sentir em casa em todo o lado, membros da família do longe e do perto, o que significa então estar nas estradas do mundo.

A Comunidade não perdeu o sonho de mudar o mundo porque sente o seu sofrimento e sabe que tudo é possível para aqueles que crêem. Esta noite rezamos por ele, por Marco e por "aqueles que se afadigam entre vós", por quem o apóstolo nos convida a ter sempre consideração, respeito e amor, de forma responsável e pessoal, salvaguardando o santo dom da comunhão. (1 Tes. 5,12).
Foi o Espírito que nos chamou a fazer parte deste mosaico
que retrata, tal como aquele que está diante dos nossos olhos, o sonho de Deus sobre o mundo. Ao olhar para o mosaico, penso em todas as nossas comunidades e em cada uma das nossas pessoas chamada a compor esta bela visão do nosso presente e do nosso futuro, sentada à volta na plenitude da glória, envolta na plena luz do ouro, estrelas cada uma chamada pelo nome, nunca anónimas.  De certa forma, o mosaico ajuda-nos a compreender o que já somos, mesmo na fraqueza e no pecado de cada um de nós. Cada pequena pedra, que por si só é perdida ou sem significado e valor, adquire importância e beleza precisamente porque é amada e reunida. Ninguém se salva sozinho. Todos aqueles que o mundo condena a estar sozinhos, que considera inúteis, estão incluídos neste mesmo mosaico. Há tanta necessidade desta luz na escuridão das pandemias que ameaçam a vida, impiedosas como sempre o mal. Cada pedra é importante, mas não por si só - que valor teria? - mas precisamente porque juntos. Quão precioso num mundo tão fragmentado, tão étnico, que procura segurança em muros e fronteiras, é um mosaico como o nosso, que inclui, que sabe representar de tantas formas a humanidade amada por Deus. Hoje penso que todos nós compreendemos melhor isto, sempre com admiração pelos dons que recebemos e somos. Para que serve a tua cor se ela não vai ao lado da dos outros? É um mosaico de tanta humanidade que ao longo dos anos cresce e cuja imagem se torna cada vez mais bela, clara, atraente, luminosa. Nele é para nós mais fácil e mais consolador contemplar a outra parte da comunidade que já está na plenitude do amor, os nossos irmãos e irmãs que nos deixaram e que reflectem para nós a plenitude do amor de Deus. Recordamo-los nesta festa que pertence a todos.
Em frente da porta de cada uma das nossas comunidades, pequenas ou grandes, acontece sempre tal como é descrito no evangelho que acabamos de escutar.

Toda a cidade do mundo se reúne em frente da porta da Comunidade. Temos o mundo no nosso coração e o mundo encontra o seu coração nas Comunidades que dão esperança, luz, consolação, protecção e onde todos são irmãos, mesmo aqueles que não têm nome e nenhuma importância para o mundo. Nunca esteve com a porta fechada e na oração e no serviço tomou a sogra de Pedro pela mão e teve o mesmo amor pessoal pela multidão.

A porta é a da compaixão e da oração. O amor faz com que sintamos como nossa da dor dos nossos vizinhos, do sopro que é a vida de tantos Job - mas não é realmente cada pessoa assim? - que descobrimos ser nossos irmãos e irmãs e que encontram um casa, a nossa casa. Quantos experimentam que os seus dias são como os de um mercenário, forçado a noites que se tornam muito longas enquanto esperam por um amanhecer demasiado distante e incerto? Olhando para esta grande multidão de pessoas pobres, compreendemos como há tanta necessidade de proclamar o Evangelho antes de mais nada com as nossas vidas pessoais. Verdadeiramente ai de nós se não comunicarmos o Evangelho. Compreendemos a importância da nossa casa ao olharmos para a multidão que está sempre a aglomerar-se à sua frente. Obrigado Senhor, porque contemplamos os frutos do vosso amor que gera novo o que é velho. Obrigado Senhor, porque ensinas que livre é aquele que se faz servo para que ninguém se perca.
"O Senhor cura os corações aflitos e cura as suas feridas. O Senhor sustenta os pobres, mas rebaixa os ímpios até ao chão". Obrigado Senhor, abençoai e protegei.