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A memória de Modesta em Itália e na Europa, de Oriente a Ocidente. A homilia do Cardeal Zuppi em Bolonha

15 Fevereiro 2021

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Nestes dias em que o frio cada vez mais intenso se fez sentir por toda a Europa, muitas vezes com consequências trágicas, Sant'Egidio em muitas cidades continua a preocupar-se com as pessoas que vivem nas ruas e a rezar por aqueles que morreram por causa das dificuldades da vida e da falta de acolhimento. Relatamos, das muitas celebrações, algumas fotos de Bolonha, Budapeste e Barcelona, juntamente com a homilia do Card. Matteo Zuppi, proferida por ocasião da memória de Modesta na igreja dos Santos Bartolomeu e Caetano em Bolonha.

«A Palavra de Deus guia-nos sempre muito mais do que pensamos. Muitas vezes a escutamos pouco e com pressa. Por vezes somos nós a procurarmos o que precisamos ou pensamos que nos possa ajudar, muitas vezes para nos dizerem o que queremos. Na realidade, acontece sempre o mesmo como hoje: é a Palavra que nos procura para nos ajudar a compreender, para sermos nós próprios, para nos mostrar, para nos ajudar a decidir, para nos ensinar a contar os nossos dias e a adquirir um coração sábio. É Jesus que se faz sempre encontrar por nós, muitas vezes distraído ou convencido, como os fariseus, a ver e a escutar.

Hoje recordamos, no que é hoje uma tradição, Tancredi e com ele os muitos que morrem na rua. Incrível: na rua! É sempre o amargo e desconcertante "Não havia lugar para eles". É uma derrota para todos. Viver e morrer na rua deve provocar indignação, sem incertezas, sem justificações. Não se pode morrer na rua, não se pode viver na rua, perdido no anonimato da multidão como tudo o que não é amado. Mas cuidado, porque sem amor nada é importante e com o afastamento da indiferença acabamos todos despojados das aparências que pensávamos que nos deviam garantir distinção, valor, segurança, futuro.

Hoje recordamos aqueles que são esquecidos pelos homens mas não por Deus. E é Deus que nos ensina a recordá-los, na vida e na morte. São como uma ladainha de santos, os santos irmãos pequenos de Jesus. Pronunciaremos os seus nomes porque o amor torna-os conhecidos um a um, tirando-os de uma categoria ou definidos pela sua condição e não pela sua história e personalidade.

De muitos recordamos também os rostos, que começamos a distinguir dobrando-nos sobre eles, olhando nos seus olhos, estabelecendo um laço de amizade que nos permite descobrir tanta humanidade, dignidade, pensamento. Acenderemos velas na fé em Deus que é luz e derrotaremos as trevas da morte. Queremos também acender o amor por aqueles que hoje vivem nas ruas, recordando o convite que o Papa Francisco faz na encíclica Fratelli Tutti para não só dar pão àqueles que dele necessitam na emergência, mas também para combater as causas da pobreza e para encontrar soluções que libertem da rua e vistam a todos com toda a dignidade.

Algumas formas: tratá-los com amabilidade, do tipo que queremos para nós; ouvi-los e levá-los a sério, como gostaríamos que nos fizessem; ser pacientes, como exigimos para nós próprios; não desistir, como esperamos que os outros façam face aos nossos problemas mesmo que não sejam fáceis, ou melhor, precisamente porque não são fáceis; procurar soluções reais e não provisórias. Se amamos uma ideia, desistimos imediatamente e dizemos que nada pode ser feito.

Se amamos os sem-abrigo como eles são, vamos encontrar tantas pessoas com o fardo de histórias realmente difíceis. Pois, estes são como os nossos poucos pães e peixes que permitem a Jesus saciar a multidão e não apenas a multidão, mas todos, incluindo nós. Jesus não tira a alguém: ele dá a todos e também estabelece que o pão é para todos e que só ao pensar em todos nós também o temos. Jesus não pede sacrifícios, mas um dom, e só desta forma o pouco se torna muito, e só se pensarmos em satisfazer todos ficaremos também satisfeitos.

Na memória de hoje contemplamos o sonho de Deus: irmãos todos, ou melhor, os irmãozinhos de Jesus que são os mais amados porque são os mais pequenos. Ajuda-nos a ver espiritualmente a história humana que encontramos e a compreendê-la na contemplação dos sinais espirituais. Somos todos pó e todos precisamos de sentido, do que não acaba, de amor que veste de importância.

Somos mendigos e peregrinos neste mundo. A sua força, podemos dizer, é precisamente a nossa fraqueza! Já não temos de procurar uma força que não temos, que nos magoa, que roubamos dos outros, ou que nunca alcançamos! A verdadeira mudança é a compaixão.

Não é uma sensação desnecessariamente romântica que nos faz sentir bons por um preço barato. A compaixão muda a vida e faz-nos pensar juntos entre discípulos. Quando perdemos a compaixão pelos outros, discutimos entre nós! Jesus envolve-nos. E não porque não têm o suficiente para comer no presente - que muitas vezes consideramos muito pouco - mas porque está a pensar no futuro deles.

Eles vão precisar ao longo do caminho. Isto é amor que muda a vida, e é assim que um futuro melhor é preparado para ser real! Não promessas ou compromissos vagos que não resolvam ou se limitem ao imediato. Jesus olha para a multidão como uma pessoa e nela distingue cada pessoa, isto é, cada homem e cada mulher.

Ele não a ama porque ela tem qualidades particulares, mas porque tem fome e porque a vê com uma preocupação paterna e maternal. Ele conhece-a: sabe que eles vêm de longe e devem ir longe. Aqueles que estão na rua têm a sua própria longa e muitas vezes dura história.

Jesus ensina-nos a compreendê-la, a respeitá-la, a não julgá-la, mas a amá-la. Compaixão significa amar o outro como a si mesmo e assim compreender o mal que ainda é invisível. A compaixão, muito mais do que o dever e a filantropia, leva-nos a sentar no chão.

O evangelho parece descrever as nossas distribuições na rua, parando com as pessoas, pondo uma mesa e fazendo da rua uma mesa, um lugar familiar. É o serviço eucarístico que completa o pão que partimos no altar. No fim da vida é o próprio Deus que levanta a nossa pobre humanidade com as mãos de Jesus.

Como é ofensivo e inútil mandar as pessoas embora, afastá-las! O problema é resolver problemas, não movê-los e fingir que não existem porque não os vemos ou pensamos que dizem respeito a outros! Mesmo que estejam longe, falecem porque nós não os ajudámos!

Vamos juntar o que temos e o que somos para proteger aqueles que são fracos e não conseguem sozinhos! Protejamos a fragilidade daqueles que vivem nas ruas porque é o sinal de uma cidade que preserva a sua humanidade. Começa por nós. Dai-lhes vós mesmos de comer, significa também que o facto de a terem ou não depende de nós. O próximo sou eu e o próximo é meu.

Na multidão saciada, vemos o início do futuro banquete do céu, onde os seus irmãos mais novos são hoje acolhidos. " Fazei o bem a tantos quantos mais puderdes e seguir-vos-á com mais frequência para encontrar rostos que vos farão felizes", escreveu Manzoni. Sim, para nós desconfiados e possessivos, o Evangelho explica como o bem nunca se perde e cada encontro será na alegria e não no medo. Mas precisamos de fazer o bem a tantos quantos mais pudermos, começando por aqueles que não têm ninguém que se lembre deles.

Obrigado Jesus por te tornares um mendigo para nós e por nos libertares do medo de dar o que temos. Contigo estamos todos saciados, a ninguém falta e o nosso caminho, por vezes tão incerto e cansativo, é sempre acompanhado pelo Teu amor.

Dá-lhes a luz do teu pleno amor e a nós para sermos brilhantes e fortes no amor».

Link para o site da Igreja de Bolonha 

As fotos de Budapeste são de Magyar Kurir

 

 



A memória de Modesta em Itália e na Europa, de Oriente a Ocidente. A homilia do Cardeal Zuppi em Bolonha
A memória de Modesta em Itália e na Europa, de Oriente a Ocidente. A homilia do Cardeal Zuppi em Bolonha
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