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África sofre com a guerra na Ucrânia: a pobreza aumenta no Malawi e em Moçambique. Editorial de Andrea Riccardi

31 Julho 2022

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Uma inflação galopante causa greves e exacerba problemas crónicos. Mas os jovens querem mudança...

A guerra na Ucrânia está longe de África, que visitei recentemente: Malawi (18 milhões de habitantes, 90% da população nas zonas rurais, um dos países africanos mais densamente povoados), Moçambique (31 milhões de habitantes, metade em pobreza extrema, 85% agricultores). A guerra europeia já está a fazer sentir as suas consequências. O aumento dos preços dos combustíveis provoca greves em Moçambique. Todos notam o aumento dos preços. Um pão tornou-se mais pequeno. Em algumas zonas do Malawi e de Moçambique sente-se o risco de fome, especialmente para os mais pobres, os idosos. Grande é a pobreza dos idosos, como em grande parte da África, sem um sistema de previdência social. Os idosos dependem em tudo da família, se a tiverem.

O Malawi, todo agrícola, olha para o futuro com medo. Em 2012 houve uma fome que causou 3.000 mortes e muito sofrimento. No mundo global, estamos todos ligados e as consequências da guerra ucraniana estão a ser sentidas à distância. A pandemia de Covid-19 já atingiu a economia de rua, uma fonte de subsistência para muitos nestes países. Maputo, a capital de Moçambique, que já visitei muitas vezes (desde que foi apanhada pela fome em 1984), está sempre a crescer, com novos edifícios, trânsito intenso, novos negócios. A economia está a desenvolver-se, mas a prosperidade pertence a muito poucos.

A paz entre a FRELIMO (então partido único no poder, que liderou a guerra de libertação contra o colonialismo português) e a guerrilha RENAMO foi assinada há 30 anos, a 4 de Outubro de 1992, após longas negociações em Sant'Egidio. Matteo Zuppi e eu fomos mediadores. Durante muitos anos, o país esteve em paz. Hoje, no Norte, para além de grandes riquezas naturais, surgiu infelizmente uma guerrilha islamista, que o governo não é capaz de vencer. Aterroriza a população com violência e massacres. Quase 900.000 moçambicanos deixaram as suas casas e estão a aglomerar-se em desespero em Pemba e noutros locais, sem verdadeiros campos e com pouca ajuda. Tanta dor parece muito distante do agitado Maputo. Mas isto também é Moçambique. Beira, uma cidade onde Portugal deixou a sua marca urbana, está no Oceano Índico.

O grande desafio é a subida dos mares. Em 2019, um ciclone tropical intenso, Idai, atingiu a cidade, semeando a destruição. Visito algumas casas reconstruídas para os idosos, numa iniciativa de solidariedade. Uma delas, Helena, diz-me: "Sinto-me como uma pessoa, porque tenho um tecto". Estou impressionado por ela ter acolhido na sua pequena casa, da qual se orgulha, cinco crianças, os seus netos e outros. Como é que eles vão comer? Nunca se é tão pobre que não se possa ajudar outro pobre.... Encontro doentes com SIDA, tratados nos centros Dream em Moçambique e no Malawi: a grande vitória, há 20 anos, foi introduzir o tratamento como na Europa, enquanto organizações internacionais afirmavam que tal não era possível em África devido à incapacidade africana de aderir ao tratamento. Política vergonhosa, que sancionou a desigualdade com o Norte global. Para os africanos, diziam eles, a prevenção era suficiente e assim, para os doentes sem tratamento, havia uma sentença de morte. Em Moçambique e no Malawi, a vida pulsa. Há muitas crianças e jovens que querem viver e melhorar. Na Beira, vou ao túmulo (uma pequena cruz no chão e ponto final) do Bispo Jaime Gonçalves, mediador pela paz em Roma. Ele foi o primeiro a sonhar com isso. O mundo precisa de paz. E a África ainda precisa de sonhos.